Por Carmelina Suquerê
Quando pensamos em iluminação, geralmente nos preocupamos com a capacidade de enxergar melhor e com o conforto visual dos ambientes. Escolhemos luminárias, lâmpadas e pontos de luz, mas nem sempre consideramos que a iluminação também interfere no funcionamento do organismo.
Em minha pesquisa de doutorado sobre iluminação integrativa, desenvolvida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), estudei como a luz pode contribuir para a saúde, o bem-estar e a eficiência dos ambientes construídos, além de cumprir sua função visual.
Durante milhares de anos, o ser humano organizou sua rotina de acordo com o movimento natural dos dias: despertava com o nascer do sol e descansava com a chegada da noite. Esse ciclo de claro e escuro ajuda a regular o ritmo circadiano, nosso relógio biológico, associado a funções como sono, estado de alerta, humor, concentração e produção hormonal.
A vida contemporânea, entretanto, alterou essa relação. Passamos boa parte do dia em escritórios, escolas, hospitais e residências, muitas vezes com pouco acesso à luz natural. À noite, continuamos expostos à iluminação artificial e às telas de celulares, computadores e televisores.
O organismo interpreta a luz como um sinal de tempo. Pela manhã, a claridade natural informa ao cérebro que é hora de despertar e contribui para o estado de alerta. À noite, a redução da luminosidade favorece a produção de melatonina, hormônio que prepara o corpo para o sono. A exposição inadequada à luz intensa no período noturno pode interferir nesse processo.
É nesse contexto que a iluminação integrativa ganha espaço na arquitetura e no design de interiores. A proposta é planejar a iluminação não apenas para atender às necessidades visuais, mas também para considerar seus efeitos biológicos sobre as pessoas.
A luz natural tem papel central nesse conceito. Sua intensidade, direção e composição variam ao longo do dia e fornecem ao organismo referências importantes para manter o relógio biológico sincronizado.
Essa compreensão representa uma mudança na maneira de projetar. Já não basta calcular a quantidade de luz que chega às superfícies. É necessário avaliar como ela será percebida pelas pessoas, em quais horários e durante quanto tempo.
Janelas bem posicionadas, controle do excesso de insolação, escolha adequada de materiais e integração entre iluminação natural e artificial são estratégias que podem tornar os espaços mais confortáveis e eficientes. Quando bem planejado, o aproveitamento da luz do dia também reduz a necessidade de iluminação artificial e, consequentemente, o consumo de energia elétrica.
A pesquisa mostrou que saúde, conforto e eficiência energética podem fazer parte da mesma solução. Não é necessário escolher entre ambientes mais saudáveis ou sustentáveis: um projeto bem elaborado pode conciliar os dois objetivos.
Mais do que organizar e iluminar espaços, a arquitetura pode contribuir para a qualidade de vida. Um dos desafios dos profissionais da área é projetar ambientes que respeitem o funcionamento natural do corpo humano.
A melhor iluminação nem sempre é a mais forte. É aquela que acompanha o ritmo da vida.
*Carmelina Suquerê é arquiteta e urbanista, coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo do UNIVAG e conselheira estadual do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso (CAU-MT).
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