Neste mês de agosto, o Brasil se veste de lilás para lembrar que nenhuma mulher deveria ter medo dentro da própria casa. A campanha nacional marca o aniversário da Lei Maria da Penha, que em 2026 completa vinte anos. Duas décadas depois de sancionada, ela segue sendo um dos instrumentos mais importantes que já construímos para enfrentar a violência de gênero — e, ao mesmo tempo, um lembrete de quanto ainda falta caminhar.
A lei trouxe algo que parece óbvio, mas que precisou ser escrito para valer: a violência contra a mulher não se resume à agressão física. Ela aparece também na humilhação constante, no controle, na ameaça e, muitas vezes de forma silenciosa, no bolso. A chamada violência patrimonial — quando alguém retém o dinheiro, impede a mulher de trabalhar ou a mantém dependente para que ela não tenha como partir — é uma das faces mais cruéis e menos comentadas desse ciclo. E é aqui que eu, à frente de um instituto de previdência, sinto que tenho algo a dizer.
Falo de um lugar que talvez não seja o primeiro que vem à cabeça quando pensamos em Agosto Lilás. Mas trabalho todos os dias com aquilo que dá a uma mulher a chance de decidir sobre a própria vida: a segurança de ter renda, de ter direitos garantidos, de saber que o seu trabalho hoje se converte em amparo amanhã. Uma servidora que tem o seu salário, a sua carreira e a sua aposentadoria assegurados tem também um bem que nenhuma lei sozinha entrega: a liberdade de dizer não. A autonomia financeira não resolve tudo, mas abre a porta. Quem depende economicamente de um agressor demora muito mais para conseguir sair.
O serviço público é feito, em grande parte, por mulheres. Nas escolas, nas unidades de saúde, nas creches e nas repartições de Várzea Grande, elas são maioria. Cuidam da cidade e das famílias dos outros, muitas vezes carregando também o cuidado das próprias. Garantir a essas trabalhadoras uma previdência sólida, transparente e respeitosa não é apenas uma obrigação técnica de gestão. É uma forma concreta de proteção. É dizer a cada uma delas que o seu futuro está seguro, que ninguém vai poder usar a necessidade como instrumento de poder sobre ela.
Por isso entendo o Agosto Lilás como um chamado que vai além da denúncia — embora denunciar seja essencial. O Disque 180 e o Disque 190 existem para isso, e não devemos ter vergonha nem receio de acioná-los, por nós ou por quem está ao nosso lado. Mas a campanha também nos convoca a olhar para as estruturas que ou empurram uma mulher para a dependência ou lhe dão condições de escapar dela. Educação, trabalho digno, creche, saúde e, sim, previdência formam essa rede. Quando qualquer um desses fios se rompe, é sempre a mais vulnerável que cai.
Como mulher em uma posição de gestão, não trato esse tema como distante. Sei o quanto ainda precisamos provar, o quanto ainda ouvimos que certos espaços não seriam o nosso lugar. Cada mulher que ocupa um cargo, que decide, que assina embaixo, ajuda a alargar o caminho para as que vêm depois. E cada política pública que devolve autonomia a uma trabalhadora é um tijolo a menos no muro do medo.
Vinte anos de Lei Maria da Penha nos ensinaram que proteger uma mulher exige mais do que boa vontade: exige lei, exige rede e exige compromisso do poder público, todos os dias, não só em agosto. O lilás deste mês é bonito, mas ele só terá cumprido o seu papel quando for desnecessário. Enquanto esse dia não chega, seguimos — cuidando, garantindo direitos e lembrando a cada mulher de Várzea Grande que ela não está sozinha e que o seu futuro tem quem o defenda.
Se você ou alguém que você conhece está passando por uma situação de violência, ligue 180. Em caso de emergência, 190.
Por Sumaia Leite de Almeida, presidente do Instituto de Seguridade Social dos Servidores Municipais de Várzea Grande (Previvag)



