Pesquisa analisou mais de 60 mil amostras e encontrou taxa de 0,10% de infecção por HTLV em doadores de sangue em Mato Grosso
Uma pesquisa realizada em Mato Grosso identificou baixa prevalência do vírus linfotrópico de células T humanas tipos I e II (HTLV-I/II) entre doadores de sangue atendidos pelo Hemocentro do Estado. O estudo analisou mais de 60 mil amostras coletadas entre janeiro de 2018 e agosto de 2021 e encontrou taxa de infecção de 0,10%, índice considerado semelhante ao observado em hemocentros da Região Sudeste do país.
A investigação integra um conjunto de ações voltadas à vigilância epidemiológica e à segurança transfusional, com foco no aprimoramento da detecção do vírus em doadores de sangue em Mato Grosso. O trabalho é desenvolvido em parceria entre o MT Hemocentro, o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen-MT) e o Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM), unidade de referência no acompanhamento de casos com sorologia positiva.
O HTLV é um retrovírus da mesma família do HIV, capaz de infectar linfócitos T, células responsáveis pela defesa do organismo. Na maioria dos casos, a infecção permanece assintomática por muitos anos, sem manifestações clínicas aparentes.
No entanto, uma pequena parcela dos infectados pode desenvolver doenças graves, especialmente de natureza neurológica e hematológica, como a Paraparesia Espástica Tropical — que afeta a mobilidade das pernas — e a Leucemia/Linfoma de Células T do Adulto, um tipo raro e agressivo de câncer do sangue.
O vírus também pode estar associado a inflamações oculares, problemas dermatológicos e maior suscetibilidade a outras infecções, o que reforça a importância do rastreamento em bancos de sangue.
Ao todo, foram analisadas 60.568 amostras de doadores de sangue. Destas, 63 apresentaram resultado positivo para HTLV-I/II. O ano de 2020 registrou a maior taxa de detecção, com prevalência de 0,16% entre os voluntários avaliados.
O estudo também identificou predominância de casos positivos entre mulheres, com idade entre 31 e 45 anos, autodeclaradas pardas, com ensino médio completo e inserção no mercado de trabalho formal.
Além disso, foram observados registros de coinfecções com outros agentes transmissíveis por via sanguínea, como hepatite B, hepatite C, HIV e sífilis.
As análises foram realizadas por meio de técnica de quimioluminescência automatizada, utilizada na detecção de anticorpos anti-HTLV-I/II em bancos de sangue devido à alta sensibilidade e precisão.
Embora a prevalência seja considerada baixa, os pesquisadores destacam a importância da manutenção da vigilância contínua e da ampliação de estudos sobre a circulação do vírus na população. O monitoramento é apontado como essencial para fortalecer a segurança transfusional e orientar políticas públicas de saúde.
Segundo os responsáveis pelo estudo, o rastreamento sorológico em hemocentros brasileiros é obrigatório desde 1993 e desempenha papel fundamental na prevenção de infecções transmitidas por transfusão.
A pesquisa é coordenada pelo professor doutor Ruberlei Godinho de Oliveira, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), por meio do edital PPSUS 004/2025.
De acordo com o pesquisador, além de garantir maior segurança nas transfusões, o processo de triagem também permite encaminhar doadores com resultados positivos para acompanhamento na Rede de Atenção à Saúde do SUS.
O estudo também contribui para a formação de novos pesquisadores na área, incluindo a farmacêutica Pennsylvania Marinho Borralho, do MT Hemocentro, que desenvolve dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Aplicadas à Atenção Hospitalar da UFMT, com resultados publicados na Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde (RESS/SUS).



