Randala Lopes
Toda vez que coloco o pé numa feira que sonhei e ajudei a construir, depois de meses de planejamento, noites mal dormidas, negociação com expositores e organização de uma logística que ninguém vê, sinto uma mistura de alívio e gratidão. Alívio porque o projeto foi concluído. Gratidão porque as pessoas acreditaram e vieram prestigiar.
Pode parecer algo simples, mas quem organiza eventos no agronegócio brasileiro sabe que não é. Especialmente em 2026.
O campo brasileiro vive um momento de contradição dolorosa: uma safra estimada em mais de 350 milhões de toneladas: recorde histórico de produção. Em contrapartida, o agricultor enfrenta o derretimento da sua renda pressionado por custos elevados, preços internacionais mais baixos e juros que sufocam qualquer viabilidade econômica.
É nesse cenário que eu, e tantas outras pessoas como eu, tentamos manter vivas as feiras do setor neste ano.
O que grandes feiras como a Agrishow nos ensinaram este ano
A maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, a Agrishow, realizada na última semana, em Ribeirão Preto (SP), chegou à sua 31ª edição com o peso de um mercado em contração. Meses antes da feira, a expectativa já era de queda na venda de máquinas agrícolas, a exemplo de outras grandes feiras pelo país. Empresas fundadoras do evento admitiram abertamente que seria “a mais desafiadora Agrishow dos últimos anos”. Ao final, os números de vendas e intenção de negócios foram divulgados com percentual 22% menor que no ano anterior, mas com a manutenção no número de visitantes, cerca de 197 mil pessoas.
Ou seja, a feira aconteceu! Os estandes foram montados. Não houve desistência de expositores e nem redução de área. E isso não foi ingenuidade de quem investiu tempo e dinheiro para estar ali. Foi estratégia. Quem conhece o setor sabe que feira não é só venda. Fechar negócios é fantástico, sim… mas nunca foi apenas isso!
Feira é presença! É sinal de que a empresa existe, acredita no mercado e na região em que está instalada e está de pé, de portas abertas para seus clientes. É um espaço que deve ser visto como ponte, que conecta uma marca a um consumidor em potencial.
Outra lógica simples: num momento em que o produtor está mais cauteloso, com menos margem para errar, ele precisa “ver para acreditar”. Precisa tocar o equipamento, conversar com um vendedor, trocar ideia com um conhecido, entender a solução que está disponível no mercado. Nenhuma página de rede social ou catálogo em site pode fazer isso.
Eu continuo acreditando em feiras que conectam empresas ao agro mato-grossense
Cada edição de uma feira é construída quase do zero, com uma equipe enxuta, muito trabalho e uma teimosia que, francamente, às vezes me assusta.
E sei que as feiras, sozinhas, não resolvem os problemas mais urgentes dos produtores, mas são as feiras que fazem algo que política pública nenhuma consegue fazer com a mesma velocidade: elas conectam pessoas e difundem conhecimento rápido.
Quando um produtor rural da agricultura familiar conversa com um técnico de uma empresa de insumos e resolve um problema que tinha há anos, isso não vai aparecer em nenhum relatório de negócios.
Quando uma mulher empreendedora do agro apresenta seu produto pela primeira vez num estande e fecha seu primeiro grande lote de vendas, ela lembra daquele dia para sempre.
Quando um município produtor expõe sua principal cadeia produtiva na capital, por quatro dias e vira o centro de visitação do local, isso cria um valor que vai muito além do financeiro.
E é isso que teremos na GreenFarm 2026, de 27 a 30 de maio!
Acredito que feiras são espaços de confiança num tempo de incertezas. São lugares onde o aperto de mão, a curiosidade e o sorriso de satisfação ainda valem. Onde a marca não fica apenas numa tela, mas é vista por meio de uma pessoa que olha nos seus olhos e defende o produto que vende.
Então sim: estou organizando mais uma feira. Vou receber os expositores mais uma vez no Parque Novo Mato Grosso. Vou montar cronogramas, resolver imprevistos logísticos, criar espaços inovadores e estarei desde o primeiro dia, com os “pés no chão” e um sorriso no rosto, dizendo para quem chega:
“ Seja bem-vindo à 3ª edição da GreenFarm em Cuiabá, a capital do estado mais agro do Brasil.”
Randala Lopes é comunicadora e empresária em Mato Grosso. CEO do Grupo Farmers e do Canal Agroplus, e idealizadora da feira GreenFarm e Circuito Fazenda Rosa.



