UNIVAG

ARTIGO – Pantanal: no olhar da conexão

*Christiane Caetano

Já fazia uma hora que eu estava sentada na mesma posição, as pernas dormentes, os mosquitos que não davam trégua. No ponto de desistir daquele comportamento mimético que nos pretendia fazer passar despercebidos na vastidão do Pantanal, eis que aparece o passarinho, aquele serzinho pequeno, colorido e com um bater de asas apressado. Durante eternos segundos nem respirávamos para não espantar o exemplar que era alvo dos nossos desejos e mira das lentes. Esse instante fazia valer cada minuto de desconforto porque era a prova da grandeza da biodiversidade e da beleza exuberante de uma região com tanto ainda a ser descoberto.

 

Foi assim, acompanhando a imprensa nacional e as expedições de fotógrafos como Haroldo Palo Jr., que tive a oportunidade de conhecer o Pantanal de Mato Grosso. Era final da década de 1990 e o Sesc tinha acabado de adquirir as primeiras áreas para implantar a RPPN que hoje é a maior reserva privada do patrimônio natural do país, com 108 mil hectares muito bem conservados.

 

Naqueles momentos permeados de camuflagem eu jamais poderia imaginar que vinte anos depois estaria morando em Mato Grosso e a frente de uma instituição tão importante quanto o Sesc Pantanal. Mas dali, daquelas horas de intensa observação, eu entendi com clareza o que deveria ser a base de todos os projetos que desenvolvemos: conexão.

 

O que começou como um projeto ambiental se expandiu para uma unidade em Poconé, porque não adianta conservarmos uma área natural se não proporcionarmos o desenvolvimento social, cultural e econômico para as pessoas que habitam a mesma região.

 

A unidade Sesc Poconé atendeu, em 2018, mais de 21 mil pessoas nas mais diversas atividades de esporte e lazer, com oficinas, cursos profissionalizantes, apresentações culturais e atendimentos de saúde.

 

Depois de estabelecer a área da reserva, também criamos uma das mais importantes unidades de turismo responsável do país, o Hotel Sesc Porto Cercado, que recebeu 33 mil turistas ano passado para visitar o Pantanal e apreender sobre esse ecossistema. Sem contar as unidades do Parque Sesc Baía das Pedras, que desenvolve atividades recreativas numa área de mais de 4 mil hectares e é base de pesquisas avançadas; e o Parque Sesc Serra Azul, focado em turismo de aventura e que abriga a nascente de um dos mais importantes rios que compõem o Pantanal.

 

A RPPN conserva o território, amplia o conhecimento científico e garante a preservação de centenas de espécies animais e vegetais. O Hotel e os Parques difundem a riqueza do Pantanal através de um turismo que propõe tornar os visitantes multiplicadores de conhecimento. O Sesc Poconé promove o desenvolvimento da comunidade no entorno. Todas as unidades contratam mão-de-obra, adquirem produtos, alimentos e artesanato de produtores e artistas locais. É assim que esse sistema se constitui como uma rede poderosa que interliga natureza e ser humano.

 

Essa é a conexão que nos torna, com muito orgulho, um polo de desenvolvimento socioambiental.

 

De lá, das minhas experiências desbravadoras, eu trouxe um respeito enorme pelo poder da natureza. Daqui, da minha posição como gestora, carrego a grande responsabilidade de fortalecer e levar adiante esse projeto. Porque quando as lentes mostram os resultados, a gente vê que cada minuto de esforço e trabalho vale a pena.

 

 

*Christiane Caetano é superintendente do Sesc Pantanal, instituição ligada ao Departamento Nacional do Sesc.

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Veja também

Um verdadeiro “emaranhado invisível” que se espalha pelos postes de Mato Grosso começou a ser desmontado — e os números impressionam. Mais de 11 toneladas de cabos irregulares e abandonados já foram retiradas desde o início do ano durante a Operação Telefone Sem Fio, que intensificou ações em diversas cidades do estado. Na prática, o que parecia apenas poluição visual escondia riscos reais. Fios soltos, baixos ou instalados de forma clandestina vinham se acumulando sobre ruas e avenidas, aumentando o perigo de acidentes, choques elétricos e até incêndios. Só na região metropolitana de Cuiabá, cerca de 8 toneladas desse material foram removidas em pouco mais de três meses. A operação, realizada em parceria entre a Energisa e prefeituras, tem avançado com fiscalizações mais rígidas e resposta direta a denúncias da população. Em Cuiabá, equipes têm ido às ruas diariamente após receberem registros de moradores que flagraram verdadeiros “ninhos de fios” pendurados nos postes. Segundo a Secretaria de Ordem Pública, a quantidade de irregularidades é significativa e exige uma força-tarefa constante. Empresas que utilizam a estrutura sem autorização ou fora das normas técnicas estão na mira da fiscalização e podem ter seus cabos retirados sem aviso prévio. Leia Também: Várzea Grande amplia horário de atendimento em unidades de saúde devido aumento de viroses a partir desta quarta-feira (18) O problema vai além da desorganização urbana. Muitas dessas redes pertencem a empresas clandestinas, que operam sem contrato e sem qualquer controle técnico, colocando em risco quem circula pelas vias públicas. A ausência de manutenção adequada transforma os fios em uma ameaça silenciosa no dia a dia. A legislação permite o compartilhamento dos postes entre distribuidoras de energia e empresas de telecomunicações, mas impõe regras claras — que, na prática, nem sempre são respeitadas. Quando isso acontece, o resultado aparece nos postes sobrecarregados e nas ruas expostas ao perigo. A ofensiva continua. No próximo domingo (19), uma nova etapa da operação será realizada na Avenida dos Trabalhadores, em Cuiabá, reunindo diferentes órgãos em mais um mutirão para retirar cabos irregulares. A meta é clara: reduzir riscos e devolver segurança à população, enquanto o alerta segue — fios fora do padrão não são apenas feios, são perigosos.

Foto de Suporte

Suporte

Comentários