Projeto aponta falta de políticas públicas para salvaguadar a cultura popular cuiabana

FOTO EMANOELE DAIANE Quintal_voatuiuiu-3 - Cópia (4)

Nos quintais cuiabanos encontramos muita beleza, com personagens que proporcionam histórias e um conteúdo visual incrível! Mas diante de tamanha riqueza, existe também o sofrimento, o lado que não pode ser esquecido: que é a narrativa da perda de espaço físico e de políticas públicas para a preservação e salvaguarda desses lugares. No próximo sábado (08.05), o projeto “Quintais da Cultura Popular Cuiabana”, realizado pelo Instituto INCA – Inclusão, Cidadania e Ação, visitará um quintal na zona rural, de Siriri, Cururu e Reza Cantada, o Grupo Flor Serrana, onde guarda memórias da tradicional festa de São Bento, que mobilizava todo o entorno, e que há 20 anos não existe mais por falta de investimento.

Localizado no Aricazinho, na chácara Antônio Maria, próximo ao Pedra 90, o Quintal Flor Serrana, comandado por Helena Maria de Oliveira Nascimento, abriga o grupo que leva o mesmo nome e reserva ainda boa parte da cultura popular cuiabana.

A festa de São Bento acontecia no dia 25 de março, data do santo, e começou com o avô de Maria Helena, o senhor Manoel Marinho de Oliveira, o qual passou para o filho, o saudoso Antônio Calixto de Oliveira, que foi um famoso cururueiro da região.

Porém, a tradição se reduziu apenas à reza, ainda no tempo de seu Antônio, que parou por falta de recursos financeiros, onde somente ele arcava com os custos da festa. Assim, decidiu somente rezar o terço na data, que agora as filhas, Helena Maria e Herondina estão dando continuidade.

“Eu não era nascida e a festa já acontecia. Hoje eu tenho 55 anos e me lembro de ir na festa na casa de meu avô, entre os 7 e 10 anos de idade”, conta Helena Maria.

O Grupo Flor Serrana ocupa menos de um hectare da extensa terra de 63,5 hectares que Helena Maria herdou na partilha do pai, que dividiu, igualmente aos oito filhos, sua terra e legado.

“Graças a Deus o meu pai nos possibilitou estudar e, com isso, morei um tempo em alguns bairros de Cuiabá, onde me formei em pedagogia e dei aula por 10 anos como contratada. Hoje vivo por aqui, mas amo ensinar os pequenos e penso em um dia retomar, quem sabe aqui mesmo”, disse Maria Helena, que também pretende criar um grupo infantil de Siriri e Cururu.

O OUTRO LADO

Muito além do romantismo e potência que os quintais cuiabanos oferecem, existe também a fragilidade em narrativas diversas, de sofrimento, dor e impotência nas ações para dar continuidade nos projetos culturais. Tanto no quintal da Dona Julia, como no do grupo Voa Tuiuiú, a equipe de pesquisa do projeto conferiu tristes relatos.

Em São Gonçalo Beira Rio o lamento de dona Julia é quanto a degradação ambiental no rio Cuiabá, que contamina a matéria prima para a criação de peças de barro e realização do trabalho, além de contaminação da água para o consumo.

Já na área mais urbana, no residencial Itapajé, o abuso de autoridade e violência territorial destruiu o espaço de realização das atividades de desenvolvimento sociocultural do Voa Tuiuiú.

Neste último caso, o grupo conta que ocupava uma área verde, onde preservava o espaço, utilizando ele para os ensaios e salvaguarda dos equipamentos de dança e tradição da festa. Mas, em um determinado dia, uma empreiteira passou com maquinário derrubando tudo que construíram ao longo dos 13 anos de existência do Voa Tuiuiú, em questão de segundos.

O PROJETO

“Cada quintal tem um estilo e um jeito de se desenvolver. A importância que o Instituto INCA quer dar para esses quintais do Vale do Rio Cuiabá, além das ações que eles desenvolvem no bairro, é saber como eles podem atender a comunidade, que muita das vezes as pessoas desconhecem a existência. Como eles podem atender os jovens em vulnerabilidade social, bem como os idosos e crianças, e preservar a cultura, para que ela permaneça de geração em geração, para mais 100, 200 anos? Com a ajuda de políticas públicas!”, contextualiza Cybele Bussiki, presidente do Instituo INCA – Inclusão, Cidadania e Ação.

Além do levantamento de dados, catalogação, inventário patrimonial e diagnóstico de cultura em 10 quintais, por meio de questionário e registro de foto e vídeo, o projeto “Quintais da Cultura Popular Cuiabana”, visa produzir um e-book e realizar um fórum com líderes desses espaços, com palestras sobre Patrimônio Cultural e Economia Criativa e propor políticas públicas para o setor aos governos Municipal e Estadual.

O projeto é uma realização do Instituto INCA, patrocinado pelo Governo do Estado de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT), via emenda parlamentar do deputado estadual Dilmar Dal Bosco, com apoio da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) e Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e parceria do grupo Caleidoscópio da UFMT.

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