Domingo, 18 de Outubro de 2020

Crônica

Salvador Dali_Mulher à janela

Um zoinho pra lá… um zoinho pra cá…

A Figura na Janela

Professor Cleir Edson

Lá estava ela: mais uma vez debruçada à janela… um olhar absorto, de quem vaga como quem divaga ao léu, para a comprida rua que caminha para além do horizonte…até se encontrar com o céu. Não, não se trata simplesmente de estar à toa na janela de sua casa. Não! É algo maior, para além do acaso… mais profundo, portanto. É a própria espera no afã de seus sonhos ocultos na magia daquela cena perfeita – como a pintura em que Salvador Dali retrata sua irmã – Ana Maria perscrutando o mar ao fundo – A Figura na Janela. Perfeitas as duas imagens. Uma, aqui, em minha imaginação, em busca do real; a outra, acolá, na tela e na estética de um gênio da pintura surreal, mas ambas as mulheres de vestidos ondulados e loiros cabelos cacheados os quais balançam à suave brisa de um acolhedor entardecer, fazem daquele mágico cenário um culto ao universo feminino do Amor.

Mão esquerda no queixo, a direita caída ao longo do corpo rente à parede do lado de dentro da janela, em cujo parapeito se estende uma finíssima toalha branca rendada dos dois lados, a mulher olha investigando o caminho que se estende no infinito para além da rua, como se a qualquer instante Ele possa surgir caminhando, lentamente, e daí aconteça o finito de suas horas sem fim naquele poente de esperança em que seu sonho possa se realizar e, o amado, a quem tanto Ela vem esperando, retorne ao ninho, finalmente.

Isso se repetia em quase todas as tardes. De rotina transformou-se em ritual que, diariamente, acontece. Sim, na sagrada liturgia da espera, ela fica na janela de tocaia, pois ali se posta tal qual uma pantera, sorrateiramente.E jamais desiste! Sua têmpera é teimosa e sem igual, dali não há nada que faça com que saia, por isso ela insiste, e quietamente permanece.

Ainda no último fim de semana, estivera com sua melhor amiga no shopping da cidade, fizeram compras, andaram por tudo lá, olharam as lojas, namoraram cada coisa linda, lancharam e, na lanchonete, esperara ansiosa, tamanha a ansiedade, peito arfando, coração acelerado, olhos atentos por alguma novidade, por um venturoso momento – desses a que se assiste somente em filmes – mas nada. Não chegara a hora de acontecer, apenas a saudade de um amor que não chegara ainda.

Ela já tivera outros amores, sim. Amara e fora amada outrora, mas o que sentia em seu peito agora era muito mais do que vivera, eram anseios vindos de outras vidas, de outra era, cheios de sabores, como se a eternidade do amor que tivera, renascesse num instante nesta vida, nesta hora, quem sabe nesta primavera. Era assim que Ela – Maria – vivia. Sabia que Ele existia e estava por vir… só não podia imaginar quando nem onde, por isso seu coração nunca deixara de sentir.

João era romântico, sempre fora. Desde menino, ao contemplar a Lua em noites de sua Cheia, escrevia poemas de amor – e à luz de solitária vela, toda noite, compunha uma poesia – para Ela, sua amada que ainda não conhecera, mas que sabia existir; ele era assim: sempre poetando para uma Menina imaginária – que um dia encontraria cheio de emoção – pois em seus sonhos Ela aparecia, por isso não parava de sentir que esta seria sua sina.

Na escola, sempre arredio, tímido, não arriscava conversa com ninguém. Ficava de longe a “zoiar” com olhos de genuíno encanto as lindas meninas alegres, felizes e charmosas que riam e brincavam umas com as outras durante o recreio. Ali, ora sonhava, andando a cavalo em galopes sem freio, pelos campos da fazenda de seu avô – com uma deslumbrante lourinha de cabelos cacheados –, ora acordava e se via em tardes de primavera, vivendo gostosos piqueniques, à sombra e à brisa suave de árvores frondosas, num lindo e macio gramado verde, deitado naquele tapete natural – com uma atraente moreninha de tranças, sorridente – saboreando sobremesas saborosas ao sabor de um suave vento…

Agora, homem feito, feito homem e após vários relacionamentos perdidos no espaço e no tempo, sonha – sem nenhum pretexto a não ser certa carência – com um amor que ainda não teve; solitário vive à espera daquilo que sabe e sente será em breve. Por enquanto, sozinho, dedica-se ao trabalho de revisor de texto, faz longas e puxadas caminhadas diariamente, pratica meditação e cultiva, principalmente, o lazer de seu Espírito: escrever, escrever e escrever, pois esta é a essência de sua verve…

Assim, dois românticos, sonhadores de coração apaixonado, vão vivendo intensamente a vida em Universo separado, até que a Divindade lhes conceda a dádiva do encontro. Ela – lá – na cidade que adotara como pátria; e Ele – aqui – numa nova pátria adotada. Algumas centenas de quilômetros separam os dois. Parece impossível que venham se encontrar e se conhecer um dia, quem diria, tão longes são as terras que os distancia…

Nada é impossível quando se trata de reencontro de Almas, de um Amor vindo de outras eras! Quiçá da Eternindade! Afinal, para que existe a Sincronicidade, senão para transformar em realidade doces quimeras!

Não quero plagiar aquele filme, mas… “Estava escrito nas estrelas…” e assim ocorreu. A Lua deu a resposta, os pequenos astros aplaudiram, a janela se abriu e como uma linda sinfonia… Ele foi ao encontro dela – e Ela, ao seu encontro, também foi – enfim, a magia aconteceu e o lindo casal finalmente se uniu!

Sim, João recebera há alguns meses um convite para participar de um Sarau de Crônicas e Poesia na cidade em que um dia vivera… onde Maria – empresária de Eventos – e responsável pelo sarau, vivia! Eis que então se inicia a perfeita sincronia e, numa bela manhã de primavera, João desembarca no aeroporto, e Ele, como os demais participantes, são recebidos efusivamente pela anfitriã e demais funcionários que os esperam com tanto afã, com tamanha alegria.

Ao pisar o saguão de desembarque, João procura com os olhos Maria – a empresária; Ela, por sua vez, curiosa por conhecer aquele poeta tão falado – de nome João – espicha o olhar e… zás! Um zoinho pra lá… um zoinho pra cá – estava feita a magia, como o profeta havia profetizado e os dois quase sofrem um ataque! Foi como a descarga elétrica de um raio cuja corrente faísca e liga dois polos que se atraem – Ela e Ele ficam estáticos! E extáticos, de solaio, se espreitam até que, mais uma vez, se contemplam intensamente zoio no zoio…e ZÁS!!!

Maria e João – João e Maria… a janela escancarou, a Lua entrou e o encontro de Almas se plasmou…

Eu Sou Cleir Edson Um Poeta e Prosador Aprendiz

Gratidão à Roseli e ao seu charmoso – Blog da Roseli – que, sem dúvida alguma, navega pelo Mundo todo, levando informação, conhecimento, divertimento e alegria para todos Nós! Roseli, Você é Dez!!!

Gratidão ao Universo e à Divindade e até um outro dia em que “só o vento sabe a resposta”do que poderá acontecer…

Em meu apê, São João Del Rei, neste friozinho de um primeiro de agosto que chega ao gosto das bênçãos de Deus-Pai.

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