Como médico mastologista, aprendi que cuidar da saúde exige mais do que tratar uma doença quando ela aparece. Exige informação, acompanhamento e, sobretudo, a decisão de não adiar aquilo que pode fazer diferença no futuro. No Outubro Rosa, esse é o convite que precisamos reforçar: não espere sentir alguma coisa para olhar com atenção para a sua saúde.
O câncer de mama é uma das doenças que mais afetam as mulheres no Brasil. Embora não seja possível impedir todos os casos, identificar a doença precocemente aumenta as possibilidades de tratamento e pode melhorar significativamente os resultados. Por isso, consultas regulares e exames de rastreamento, indicados conforme a idade, o histórico familiar e os fatores de risco de cada mulher, são ferramentas fundamentais.
Mas existe um aspecto dessa discussão que merece ser observado: quantas vezes conseguimos organizar a rotina inteira, mas deixamos a própria saúde para quando sobrar tempo?
Trabalho, família, compromissos e responsabilidades ocupam nossos dias. Muitas mulheres cuidam dos filhos, acompanham os pais, sustentam suas casas e estão presentes para tantas pessoas que acabam colocando as próprias necessidades em último lugar. A consulta que seria marcada na segunda-feira fica para a próxima semana. O exame que deveria ser feito naquele mês passa para o seguinte. E, sem perceber, o adiamento se transforma em hábito.
O Outubro Rosa serve exatamente para isso, chamar a atenção para o cuidado preventivo, principalmente quando não há sintomas. Prevenção não é apenas uma campanha, uma cor ou uma mensagem compartilhada nas redes sociais. É uma atitude concreta, que começa quando cada mulher entende que cuidar de si não é egoísmo, mas uma necessidade.
Outro ponto importante é não confundir prevenção com a realização de um único exame. O cuidado envolve conhecer o próprio corpo, procurar avaliação médica diante de alterações nas mamas e manter o acompanhamento recomendado por profissionais de saúde. Mudanças como nódulos, retrações na pele, alterações no mamilo ou saída espontânea de secreção merecem investigação. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que muitas alterações podem ter causas benignas e que somente a avaliação médica permite esclarecer cada situação.
A mamografia tem papel essencial no rastreamento do câncer de mama, mas sua indicação deve considerar as recomendações vigentes e as características individuais. Mulheres com histórico familiar relevante ou outros fatores de risco podem precisar de acompanhamento diferenciado. Por isso, a orientação médica é indispensável para definir o momento adequado dos exames.
Também precisamos falar sobre acesso. Não basta dizer às mulheres que elas devem se cuidar se não houver condições para realizar consultas, exames e tratamentos em tempo oportuno. A prevenção precisa ser acompanhada de informação de qualidade, serviços acessíveis e uma rede de assistência preparada para acolher e orientar. É uma responsabilidade compartilhada entre profissionais de saúde, instituições, empresas, famílias e poder público.
Na Unimed Cuiabá, entendemos que promover saúde significa ir além do atendimento à doença. Significa valorizar a orientação, o acompanhamento e a conscientização, estimulando escolhas que contribuam para uma vida com mais qualidade. Esse compromisso precisa estar presente durante todo o ano, e não apenas em outubro.
Como médico, sei que cada diagnóstico tem uma história e que nenhuma experiência é igual à outra. Como presidente do Conselho de Administração, reconheço também a importância de fortalecer uma cultura de cuidado que coloque as pessoas no centro das decisões. Essas duas perspectivas se encontram em uma mesma convicção: informação e assistência no momento certo podem fazer a diferença.
Neste Outubro Rosa, proponho uma mudança simples de perspectiva. Em vez de perguntar apenas quando foi a última vez que você fez um exame, pergunte também por que continua adiando o próximo. Converse com seu médico, esclareça suas dúvidas e organize seu acompanhamento.
A saúde não deveria depender de uma brecha na agenda. Ela precisa fazer parte das nossas prioridades.
Porque o melhor momento para cuidar de si não é quando aparece um sinal de alerta. É enquanto você pode agir antes dele.
Por Aguiar Farina, médico mastologista e presidente do Conselho de Administração da Unimed Cuiabá


