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Luciano Maker: da madeira ao mundo

Artista cuiabano transforma brinquedos de infância em esculturas de fé e conquista espaço internacional com obras expostas em Londres

O artista plástico Luciano Maker descobriu seu talento ainda na infância, em meio a uma realidade simples e com poucos recursos. Movido pelo desejo de brincar e pela imaginação típica das crianças, ele mesmo criava seus brinquedos com latas de óleo, embalagens de leite em pó, manteiga e outros materiais recicláveis. Dessa necessidade de inventar e transformar nasceu o amor pela arte, que mais tarde o levaria a desenvolver um estilo próprio e conquistar reconhecimento além das fronteiras do Brasil.

Desde pequeno, Maker já demonstrava um olhar sensível para a arte. Além de criar seus brinquedos, também revelava talento para o desenho — uma habilidade que parecia nascer com ele. Na época, a arte ainda era um sonho distante, algo que parecia impossível diante das dificuldades enfrentadas na infância.

“Sempre desenhei muito bem, então o amor pela arte já estava presente, mesmo sem eu perceber que era um artista. Cresci com o sonho de trabalhar com desenho e arte, mas nunca tive oportunidade”, recorda Luciano.

Com mais de 400 peças produzidas, Maker mistura arte e espiritualidade em
esculturas que valorizam o realismo e a mensagem divina

Esse sonho começou a se tornar realidade durante a pandemia. Nesse período, o desejo de se dedicar totalmente ao mundo artístico ficou ainda mais forte. Movido por esse sentimento, Luciano tomou uma decisão corajosa: deixou o emprego com carteira assinada, onde atuava como gestor, para seguir o talento que carregava desde criança.

Foi uma fase de incertezas, mas também de reencontro com sua verdadeira vocação. Ele lembra que contou com o apoio de pessoas próximas, que o incentivaram a perseguir o sonho de viver da arte — um sonho que, por muito tempo, ficou guardado em seu coração.

“Durante a pandemia, esse desejo se tornou ainda mais forte. Eu sentia que o trabalho que tinha na época não me realizava e decidi pedir demissão para empreender no ramo artístico. Foi então que conheci o artista Rafael Jonnier. Mostrei meu trabalho para ele, que me acolheu e me ensinou muito”, conta.

Há cinco anos vivendo exclusivamente da arte, Luciano transformou o talento em sustento e realização pessoal. Segundo ele, a arte sempre fez parte de sua essência e representa a concretização de tudo o que sempre acreditou.

“A arte, que sempre foi parte de mim, hoje é também meu sustento e minha realização.”

Ao longo da trajetória, o artista participou de diversas exposições, incluindo quatro edições do Sic Bartão, além de mostras em diferentes regiões do país. Suas obras já foram expostas em cidades como Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG) e Goiânia (GO), e hoje integram acervos de museus e colecionadores de vários estados.

Atualmente, Luciano celebra mais uma conquista: suas obras estão em exposição em Londres, na Inglaterra, marcando um novo e importante capítulo de sua carreira. Com um talento que brotou da simplicidade e amadureceu com o tempo, o artista encontrou na madeira a essência para expressar fé, criatividade e sustento.

“Comecei fazendo caminhõezinhos de madeira, brinquedos. Depois, parti para a arte sacra, transmitindo a mensagem de Deus através das esculturas. Acho que já produzi mais de 400 peças. A maioria foi vendida, porque, no início, quem quer viver da arte também precisa pensar na venda.”

A escolha pela madeira surgiu ainda na infância, quando Luciano morava em uma cidade repleta de madeireiras. Desde pequeno, seus brinquedos eram feitos com pedaços de madeira — gangorras, carrinhos e outros objetos simples, mas cheios de criatividade. Esse contato despertou o amor pelo material, que mais tarde se transformaria na base de sua expressão artística.

A fé também se tornou parte essencial de sua obra. Para ele, cada escultura é uma forma de transmitir esperança e transformação. Cristão, o artista acredita que o dom que possui é um instrumento de Deus e deve ser usado para inspirar outras pessoas.

“A arte me proporciona esse canal: posso criar uma escultura, pintar um quadro ou produzir qualquer tipo de arte que transmita uma mensagem positiva. Em muitos lugares, vemos obras que passam mensagens vazias. Então, por que não usar a arte para espalhar algo bom?”

Criar algo autêntico sempre foi uma das metas de Luciano. Desde o início, ele buscou fugir do óbvio, evitando reproduzir obras e símbolos amplamente explorados.

“O maior desafio foi não criar coisas clichês que todo mundo já faz. Quando comecei, eu não tinha muita experiência e, muitas vezes, acabava pintando um quadro do rosto de Jesus, o leão, a pomba — temas comuns. Criar algo exclusivo que transmitisse a mensagem de Deus foi realmente difícil.”

A superação veio com fé e persistência. Ao buscar inspiração divina, Luciano encontrou a criatividade necessária para desenvolver esculturas com mais identidade e profundidade.

“Eu orei, e Deus me deu criatividade para produzir obras diferentes. Por exemplo, quando fiz esta escultura, minha abordagem foi o realismo. Cada detalhe, como aquela mão que você vê, foi feito por mim.”

Um dos momentos marcantes dessa fase foi sua participação no Sic Bartão, no Museu de Artes, durante a exposição Improváveis. Ali, apresentou obras ao lado do artista Edinelson Santos, ambos com o propósito de transmitir a palavra de Deus por meio da arte. Aline, uma das responsáveis pelo espaço, lançou-lhe um desafio: criar algo totalmente inédito.

“Decidi criar uma cruz diferente. Fui ao Rio, encontrei um pedaço de aroeira e comecei a esculpir. Quis mostrar que, através de Cristo, formamos uma grande família — o corpo de Cristo. Criei uma obra totalmente diferente, que ficou muito legal”, relata.

Para Luciano, esse processo foi um divisor de águas. Ao se reinventar e sair da zona de conforto, descobriu uma nova forma de expressar a fé e reafirmou seu compromisso com a autenticidade e a mensagem que deseja transmitir. O reconhecimento ultrapassou fronteiras. Suas esculturas e pinturas chamam atenção de colecionadores e empresários, inclusive de outros países, consolidando o artista como referência em sua área.

“Quando iniciei, meus trabalhos eram desvalorizados e eu ainda não tinha reconhecimento. Hoje, o metro quadrado da minha obra custa entre R$ 6 mil e R$ 7 mil, dependendo da peça, do grau de dificuldade e da mensagem. Existem trabalhos mais acessíveis, a partir de R$ 300, e outros que podem chegar a R$ 40 mil”, explica. Humilde e fiel às origens, o artista admite que ainda se surpreende com o sucesso.

“Ainda não caiu a ficha. Sou uma pessoa muito simples, e quando chegam dizendo: ‘Vamos tirar uma foto com o artista’, eu penso: ‘Quem? Ah, sou eu mesmo!’”, brinca.

Luciano destaca também o papel das exposições na descoberta e valorização de novos talentos.

“Quando ocorre uma mostra de arte, é aberto um edital. Qualquer pessoa pode participar. Eles definem um tema e, se a obra impactar a comissão, o artista conquista reconhecimento. Isso mostra a importância do trabalho dos museus: uma pessoa sem nome, ao participar de uma mostra, já começa a ganhar visibilidade.”

Agora, com obras em Londres, Luciano já planeja novos passos.

“Tenho o projeto de realizar uma exposição internacional completa. Também sonho em participar da Art Basel, nos Estados Unidos, com um espaço para minhas obras. Meu objetivo é levar meu trabalho a diversos lugares, sempre com o propósito de propagar a palavra de Deus.”

 

Para ele, ousar e inovar são essenciais. “Não tenha medo, pense fora da caixa e comece a fazer coisas diferentes. Olhe para os maiores artistas — eles também inovam. Basquiat, por exemplo, criava obras que pareciam desenhos de criança, mas com grande expressão. A dica que dou é: pinte como uma criança, mas com propósito. Inspire-se em Deus, porque Ele é o Criador e de quem vem toda a criatividade.”

Com essa visão, Luciano Maker reafirma que a arte vai além da técnica ou da estética — é uma forma de fé, propósito e transformação.

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Roseli

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