Feriado católico reforça o verdadeiro sentido do 2 de novembro. Outras religiões também celebram
O Dia de Finados, celebrado anualmente em 2 de novembro, é tradicionalmente associado à saudade e à lembrança daqueles que já partiram. No entanto, para a Igreja Católica, a data vai muito além do luto. É um momento de fé e de esperança, que convida os fiéis a refletirem sobre a vida eterna e o mistério da ressurreição em Cristo.
Segundo o padre Danilo Guedes, salesiano de Dom Bosco e vice-diretor do Colégio Salesiano São Gonçalo, em Cuiabá, o verdadeiro significado do Dia de Finados está na certeza da vida em Deus. “O Dia de Finados, para nós, é celebrar a certeza da Páscoa definitiva. E o que é a Páscoa definitiva? É a ressurreição da carne. Jesus Cristo, no Evangelho, deixa claro que um dia todos nós ressuscitaremos com Ele para a vida eterna”, explica.
Para o sacerdote, a data não deve ser vista como uma celebração da morte, mas da continuidade da existência. “Não faz sentido celebrar a morte. O que celebramos é a vida — e que vida é essa? A vida eterna, a vida em Cristo Jesus. A celebração do Dia de Finados existe para nos lembrar de que a nossa vida não termina aqui”, afirma o padre.
A celebração do Dia de Finados, em 2 de novembro, teve origem em 998, quando o abade Odilo, da Abadia de Cluny, na França, instituiu a data como um dia de oração pelos fiéis falecidos. Escolhido logo após o Dia de Todos os Santos, o momento simboliza a união entre vivos e mortos na fé cristã. Com o tempo, a tradição se espalhou pelo mundo, tornando-se uma ocasião de reflexão, saudade e esperança na vida eterna.

Padre Danilo destaca que, antes de celebrar os mortos, a Igreja celebra os santos — aqueles que já alcançaram a glória de Deus. “Primeiro se celebra o Dia de Todos os Santos, dedicado àqueles que estão junto de Deus e intercedem por nós. Finados vem logo depois, para nos lembrar que todos somos chamados à santidade e devemos viver em santidade em Cristo Jesus”.
Outro ponto fundamental da celebração é o poder da oração, especialmente pelas almas do purgatório, que, segundo a doutrina católica, estão em processo de purificação. “A Igreja nos convida a rezar incessantemente por essas almas, com a certeza de que somos uma só Igreja em Cristo Jesus”, explica.
Ele lembra ainda que a Igreja é composta por três dimensões espirituais: “A Igreja triunfante, formada pelos santos; a Igreja padecente, pelas
almas do purgatório; e a Igreja militante, que somos nós, ainda peregrinos nesta terra”.
Neste dia, além das tradicionais visitas aos cemitérios, o padre recomenda que os fiéis participem com fé da Santa Missa. “É um dia santo, não apenas um feriado prolongado. Por isso, é importante viver este momento em oração, participando da missa e renovando a fé em Cristo. A melhor forma de honrar nossos entes queridos é pela oração e pela esperança da vida eterna”, orienta.
O sacerdote ressalta que a Igreja Católica reconhece e respeita outras expressões religiosas que também dedicam este momento à memória dos mortos. “Sabemos que existem religiões de matriz africana e outras que têm suas formas próprias de celebrar os mortos. Isso é digno de respeito. No entanto, para a fé cristã, a morte não é o fim, mas o início de uma vida nova em
Cristo Jesus”, pontua.

A Igreja também possui um trabalho pastoral voltado ao acolhimento das famílias enlutadas. De acordo com o padre, a Pastoral da Sobriedade tem papel essencial nesse processo. “A Igreja existe para acolher e consolar. A pastoral realiza visitas aos cemitérios, às casas funerárias e celebra as missas de sétimo dia. Nesses momentos, as famílias são acolhidas e recebem o
conforto que vem da fé”, relata.
Para o padre, o Dia de Finados é, acima de tudo, um convite à reflexão sobre a brevidade da vida. Ele destaca que, ao lembrar dos que se foram, os cristãos também devem renovar a gratidão pela vida. “O Dia de Finados nos lembra que nosso Deus é o Deus da vida. Jesus venceu a morte: Ele morreu na cruz, mas ressuscitou. Que possamos ter profundamente a certeza da vida plena em Cristo Jesus”, conclui.
Outra visão

Para os evangélicos protestantes, o Dia de Finados é um momento de reflexão profunda sobre a vida e a eternidade, e não um dia dedicado a orações pelos mortos. Francisco Jackson da Silva, 32 anos, membro da Igreja Presbiteriana da Morada do Ouro e atuante no ministério de música, explica que, embora respeitem o sentimento de saudade e memória, as práticas evangélicas são centradas nos vivos e no fortalecimento da comunhão com Deus.
“A Bíblia ensina claramente que o destino eterno do ser humano é definido no momento da morte” (Hebreus 9:27), afirma Francisco, destacando a importância de compreender o limite da vida terrena. A interpretação dos protestantes se fundamenta em passagens bíblicas que enfatizam a separação definitiva entre os salvos e os perdidos após a morte. A parábola do rico e Lázaro, em Lucas 16:19-31, ilustra de forma clara essa distinção: “Entre nós e vós há um grande abismo, de maneira que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem os de lá passar para nós”, reforça Francisco.
Dessa forma, as tradições direcionam orações e intercessões para os vivos, buscando a salvação e a conscientização espiritual daqueles que ainda têm oportunidade de arrependimento. Além disso, o Dia de Finados é entendido como um momento de valorização do presente e de conscientização sobre a urgência de viver uma vida de fé.
“O evangelho da salvação deve ser anunciado enquanto ainda há tempo, pois agora é o dia aceitável, o dia da salvação é hoje” (2 Coríntios 6:2), alerta Francisco, reforçando que a data deve inspirar ações concretas em favor dos que ainda têm chance de viver em comunhão com Deus.
Embora a tradição evangélica não realize missas ou celebrações voltadas aos mortos, a data serve para fortalecer o vínculo com a fé, com a comunidade e com os ensinamentos bíblicos. Para Francisco, mais do que observar rituais, o Dia de Finados é um convite à introspecção, à valorização do tempo e à prática diária de uma vida guiada pela espiritualidade: “Devemos refletir sobre a brevidade da vida e viver com propósito, transmitindo a mensagem de Cristo e cuidando da nossa fé enquanto ainda temos oportunidade”.

Em síntese, para os evangélicos, o Dia de Finados é uma data que combina respeito pelos que partiram com a urgência de viver plenamente, em comunhão com Deus. É um momento de lembrança, sim, mas também de ação e reflexão sobre o presente, reforçando que a vida é uma oportunidade que precisa ser aproveitada com fé, consciência e amor.
Olhar da Umbanda

Além das tradições católicas e protestantes, outras religiões também trazem formas singulares de lembrar os que partiram. Na Umbanda, por exemplo, o Dia de Finados tem uma perspectiva voltada para a comunhão com os ancestrais e a reflexão sobre a vida. Christian Siqueira, umbandista há cerca de 10 anos e dirigente de casas de culto em Cuiabá e Várzea Grande, explica que “a Umbanda é um culto ancestral, baseado na busca de comunhão com os ancestrais”.
Para os praticantes, os antepassados são aqueles que faleceram recentemente, enquanto os ancestrais são os que partiram há muito tempo. O
termo “finados” é entendido de forma neutra.
“Os finados são aqueles que já passaram para o outro lado da vida, sem distinção de tempo. Nosso culto é pautado na comunhão com os ancestrais. Para nós, todos os dias são dedicados aos ancestrais, mas o Dia de Finados é uma oportunidade especial para refletir sobre a importância de viver bem a vida”, afirma Christian.
Diferentemente da Igreja Católica, que celebra missas, a Umbanda realiza rituais específicos em algumas casas para louvar os ancestrais.
“Prestamos cultos aos ancestrais por meio de preces, cânticos, oferendas e, principalmente, da oferta de bons sentimentos em favor deles”, explica o umbandista.
Christian destaca também o valor do respeito às diferentes crenças: “A morte nos torna todos iguais. Para a morte não existe religião, não existe crença; existe apenas o ser vivo. Devemos lembrar que viemos do pó e ao pó retornaremos, e as crenças não nos diferenciam no que diz respeito a voltar à origem da vida”, cita.

Ainda segundo ele, a forma de comemorar pode variar de acordo com cada casa e cada sacerdote, reforçando a diversidade presente dentro da religião. Ao falar sobre a lembrança dos entes queridos, o umbandista reforça que a melhor forma de os homenagear é por meio da própria vida: “Somos, de certa forma, a realização dos sonhos dos nossos ancestrais. Viver bem e buscar a felicidade é uma forma de louvar os ancestrais, pois significa concretizar aquilo que eles um dia sonharam realizar. Devemos respeitar nossos antepassados e ancestrais, mas também continuar a concretizar seus sonhos de um mundo melhor, de uma vida mais justa e de um planeta mais equilibrado”, conclui.
E para o Kardecista, a morte não existe, apenas uma separação momentãnea.


