Saranzal é o mais recente livro de poemas de Luciene Carvalho. A Teia poética de Luciene vem de longe. Essa Dona de poesia é mais que uma Ladra de Flores: Insânia poética pura. Quero ressaltar as confirmações e ampliações que Saranzal traz das cheias poéticas de Luciene Carvalho.
A noite de lançamento na Biblioteca Estadual Estevão de Mendonça já foi um espetáculo que confirmou o talento cênico de Luciene. Formada pela Escola MT de Teatro, Luciene sempre brilhou na expressão de seus poemas. Não são recitados, são encenados através de uma intensa persona dramática. Ritmo e Poesia, na mais pura expressão.
Outras confirmações: a poesia calorosa e acolhedora dos quintais cuiabanos, do bairro do Porto, dos feitiços do luar, do embalar das redes. Os personagens da cidade colhidos com fino olhar de Diretora-Poeta (maravilhosamente expressos no livro pela série Transporte Urbano). Toda dicção com a jinga dos sons da parafernália que une Quilombo e calçada.
Mas o livro traz ampliações poéticas, um lado novo de Luciene que as águas trouxeram com Saranzal. Para começar o show dialógico das ilustrações de Gerald Thomas que se entrançou muito bem com as tramas das palavras de Luciene. O livro assim é também uma obra de arte, livro-objeto na edição carinhosa da Carlini & Caniato.
Ampliações ainda maiores são os avanços e conquistas da poesia de Luciene. Sua voz sempre feminina, sempre lua, sempre águas, sempre portos (mesmo quando conclamam lutas) se ampliou ao incorporar a difícil e saudosa lembrança do pai. A luta deu uma trégua para o luto. Os Anjos de quintal, as Avoices, o terceiro andar de mim, já estavam com Luciene. Mas os trilhos (que encontram as águas na Corumbá mítica), o Embarque, a imagem do Pai, tudo isso veio como Saranzal se juntar a poesia de Luciene. O metal dos trilhos, a força bruta da boiada, a persistência do Carvalho, se ajunta no embarcadouro: entre rio e trilho, entre boi e gente, entre terra e água. Esse lado grave se materializa nos poemas através das assonâncias de boi, foi, oi, boy para se abrir em Pai e Paraguai.
Mas as ampliações da poesia também estão nos mínimos gestos e poemas. Como em Chilro (que eu ou Ivens gostávamos de dizer – esse eu podia ter escrito! Porque que ela escreveu antes? E riríamos muito sob o chilro do passarinho)
Chilro
Passarinho, passarinho,
Porque canta na manhã?
Será que amou a noite?
Será que ama o dia?
Será que canta pro sol?
Em cada árvore um canto,
vários cantos em um só;
passarinho que me acorda
não me deixando ser só. (Saranzal. P. 71)
Como as águas trazem Saranzal, como as aves trazem a melodia, Luciene nos traz poesia. Poesia sempre em boa companhia!

Aclyse de Mattos é escritor, poeta e professor universitário, membro da Academia Mato-Grossense de Letras.

Luciene de Carvalho é presidente da Academia Mato-Grossense de Letras.


