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Alessandra Bokor, diretora do Hospital Central de Alta Complexidade de Mato Grosso |
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Desde que o Hospital Central de Alta Complexidade de Mato Grosso começou a funcionar em Cuiabá, a rede pública de saúde no estado passou a contar, pela primeira vez, com uma unidade especializada em medicina de alta complexidade. É algo inédito na história mato-grossense e, por isso mesmo, suscetível a curiosidade e dúvidas. A medicina de alta complexidade diagnostica e trata casos mais críticos de saúde. Para isso, usa tecnologia avançada, conta com uma equipe multidisciplinar especializada e realiza um acompanhamento integral ao paciente. O ponto de partida ocorre fora do hospital: é quando a Central Estadual de Regulação identifica as situações de saúde mais desafiadoras que podem ser atendidas no Hospital Central. Hoje, a unidade oferta 12 especialidades cirúrgicas 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS): cirurgia pediátrica, urologia, ortopedia, cirurgia geral, aparelho digestivo, ginecologia, cirurgia vascular, cardiovascular, torácica, mastologia, cirurgia oncológica e neurocirurgia. Mas em que momento a situação se torna um caso de medicina de alta complexidade? Podemos usar como exemplo a cirurgia ortopédica, uma das primeiras especialidades atendidas pelo Hospital Central em pacientes pediátricos. Considera-se de alta complexidade o procedimento que envolva o uso de órteses, próteses e/ou materiais especiais, ou aquele em que é preciso monitorar o sistema neurológico do paciente, para evitar danos à mobilidade. É quando tecnologia e profissionais especializados são fundamentais. O uso de tecnologia costuma ser um dos principais aspectos para identificar a medicina de alta complexidade. Nas cirurgias cardíacas, por exemplo, é frequente o emprego da máquina que funciona como coração e pulmão artificiais – Extracorporeal Membrane Oxygenation (ECMO) no inglês, ou Oxigenação por Membrana Extracorpórea. Outro exemplo a ser mencionado são os equipamentos usados, que têm sensores de monitoramento em tempo real e realizam exames sanguíneos simultaneamente ao procedimento cirúrgico. Outra tecnologia de alta complexidade empregada é o Cell Saver, que faz autotransfusão de sangue. A máquina permite a recuperação do sangue que o paciente perde durante a cirurgia, filtrando, lavando e devolvendo-o para a corrente sanguínea do próprio paciente. Com isso, reduz-se a dependência de bancos de sangue externos, o que diminui o risco de rejeição e infecções, garantindo uma recuperação mais segura. A realização de cirurgias robóticas também pode ser associada à medicina de alta complexidade realizada pelo Hospital Central, pioneiro em dar acesso a essa tecnologia 100% pelo SUS em Mato Grosso. Inicialmente, foram as cirurgias urológicas, mas hoje outras especialidades são atendidas: ginecologia, cirurgia pediátrica e do aparelho digestivo. De janeiro para cá, o Hospital Central já realizou 2.128 cirurgias de alta complexidade, das quais 77 foram com auxílio de robô. Entre os procedimentos mais complexos realizados, estão cirurgias para corrigir cardiopatias congênitas em crianças, cirurgias cardíacas com circulação extracorpórea, neurocirurgias com neuronavegação avançada, cirurgias oncológicas com linfadenectomia robótica e cirurgia robótica pediátrica – entre várias outras. Outro aspecto da medicina de alta complexidade é a capacidade da equipe em responder de forma rápida e efetiva. Isso somente é possível no Hospital Central devido à equipe multi especializada, formada por cerca de 2 mil pessoas. São aproximadamente 600 médicos de mais de 30 especialidades diferentes, para além das 12 especialidades cirúrgicas ofertadas. Além disso, o time é formado por especialistas em terapia infusional, estomaterapia, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, nutricionista clínico, farmacêutico clínico, entre outros. O desenho organizacional inclui ainda estruturas de apoio (como agência transfusional, exames diagnósticos e laboratório clínico) fundamentais para o serviço de alta complexidade. A sincronia de toda essa equipe é pré-requisito para garantir o melhor atendimento possível aos pacientes. O que permite essa sincronia é a gestão do Einstein Hospital Israelita, organização filantrópica posicionada como melhor hospital do Brasil, de acordo com o ranking The World’s Best Hospitals 2026 da Newsweek, e com 25 anos de experiência de gestão de unidades do SUS no Brasil. Protocolos bem estabelecidos, qualificação permanente e certificações de diferentes áreas dão as condições para que o quadro de profissionais atue diariamente na recuperação da saúde dos mato-grossenses. Atualmente, estão disponíveis 287 leitos, dos quais 60 são de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), divididos entre 30 adultos e 30 pediátricos. Os outros 36 leitos são de Unidade de Cuidado Intermediário (UCI), sendo 18 adultos e 18 pediátricos. As enfermarias contam com 140 leitos adultos e 51 pediátricos. A estrutura inclui dez salas no centro cirúrgico, sendo uma exclusiva à cirurgia robótica e outra destinada à hemodinâmica, tecnologia que permite procedimentos minimamente invasivos. O acesso à medicina de alta complexidade do Hospital Central tem sido bem distribuído geograficamente. Nos primeiros seis meses de funcionamento, 64% dos pacientes que passaram por cirurgia eram de municípios do interior de Mato Grosso – incluindo muitos indígenas de diferentes etnias. Pacientes da capital, Cuiabá, somaram 22% do total, e de Várzea Grande, 14%. Mato Grosso é um estado continental, com realidades étnicas, sociais e culturais distintas. O primeiro ciclo de funcionamento do Hospital Central de Alta Complexidade ainda está em curso e o objetivo é manter uma trajetória ascendente. E com estes primeiros resultados, é possível afirmar que o hospital pode se consolidar como referência nacional em medicina de alta complexidade e como um polo regional de produção de conhecimento e qualificação para as novas gerações de profissionais da saúde. |



